Em nossa penúltima postagem, falamos sobre a arma
que foi o símbolo da criatividade e da força dos povos além da “Cortina de
Ferro”: O fuzil de assalto AK-47. Agora, vamos abordar, de forma sucinta, o seu
principal antagonista contemporâneo, ou seja, o fuzil que ficou conhecido como “O Braço
Direito do Mundo Livre”: O FN FAL.
A FN
A sigla
“FAL” vem da expressão “Fusil Automatique Léger” ou, em português, “Fuzil
Automático Leve”. O significado de “FN”, vem da empresa pela qual a arma
foi desenvolvida, a Fabrique Nationale d'Armes de Guerre, atualmente chamada de
Fabrique Nationale d’Herstal (Fabrica Nacional de Herstal), situada na pequena
cidade de Herstal, na periferia de Liège, Bélgica. A maioria das armas produzidas
nesta empresa, costuma ter o prefixo “FN” colocado antes da denominação das
mesmas, como por exemplo: FN SCAR, FN P-90, etc. Aliás, a “FN”, completa em
2014, 125 anos de funcionamento, sendo atualmente o maior produtor de armas
leves da Europa.
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| Entrada
da sede da FN, situada na rua Voie de Liege, em Herstal. O Grupo Herstal,
está desde 1997 sob controle do governo da Região da Valônia, na Bélgica.
Produz armas e acessórios das marcas "FN Herstal",
"Browning" e "Winchester Arms", possuindo atualmente
fabricas na Bélgica, EUA, Japão, Portugal e Finlândia. |
O FN-49
Terminada a Segunda Guerra Mundial, os fabricantes de armamento iniciaram o desenvolvimento de novas armas, aplicando as lições aprendidas no conflito. No que se refere aos fuzis, o sucesso daqueles com funcionamento semiautomático (GARAND M1, TOKAREV SVT 38/40, CARABINA M1, G43) e principalmente, do fuzil de assalto STG-44, levaram a percepção que um novo tipo guerra havia surgido. O conflito ensinou que a figura dos confrontos entre grandes contingentes, seja avançando em campo aberto ou entrincheirados, havia ficado no passado. Os combates, agora ocorriam a médias e curtas distâncias e, algumas vezes, no meio urbano, requerendo armas capazes de fornecer grande volume de fogo e mobilidade para o combatente.
A FN, em
vista das mudanças observadas, logo visualizou o mercado surgido pela
reestruturação das forças armadas e policiais dos países envolvidos na 2ª GM,
bem como, pela necessidade de adequação do armamento ao novo “Estado da Arte”.
Em 1947, através da equipe liderada pelo
projetista Belga Dieudonné Joseph Saive, foi concluído o projeto de um fuzil
semiautomático. O
desenvolvimento desta arma fora iniciado por Saive em 1936, sendo interrompido
devido à ocupação da Bélgica por parte da Alemanha, em maio de 1940. No
entanto, Saive conseguiu refúgio na Inglaterra, onde continuou trabalhando no
projeto, tendo inclusive, produzido alguns modelos para testes com as tropas. A
arma foi produzida em diversos calibres (7x57 mm Mauser, 7.65x53 mm Argentino,
7.92x57mm, .30-06 Springfield) e teve bom grau de aceitação, sendo adotada por
vários países, como: Argentina, Bélgica, Congo Belga, Brasil, Colômbia, Egito,
Indonésia, Luxemburgo e Venezuela. A sua designação oficial foi "F.N.
Model 49 Self Loading Rifle", no entanto, ficou conhecido
internacionalmente como FN-49 ou SAFN-49. No Brasil, foi adquirida a versão em
calibre .30-06 Springfield (7,62X63 mm), sendo que na Marinha, ele era chamado
simplesmente como “FS” e ficou em uso (na Armada) até o inicio dos anos 90.
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| Protótipo
de 1937 do fuzil que viria a se tornar o FN-49 |
O SAFN-49
é uma arma semiautomática, com coronha, fuste e guarda mão em madeira,
normalmente nogueira. A suas características básicas são as seguintes:
- Funcionamento: Por aproveitamento dos gases, através de um pistão de curso
curto, localizado sobre o cano, acionando (através de um impulsor) um ferrolho
basculante. No inicio do cilindro de gases, à frente da massa de mira, está
localizado um "obturador" cuja função é abrir ou fechar o evento de
admissão de gases, do cano para o cilindro. Este obturador permite, quando aberto, o
funcionamento semiautomático, e quando fechado, o lançamento de granadas ou tiro
de repetição. Imediatamente à retaguarda do conjunto da massa, existe um anel
aparafusado em torno do cilindro de gases, cuja função é controlar a abertura
de um orifício no cilindro, liberando para a atmosfera os gases desnecessários
a um funcionamento seguro e "suave". O anel regulador de gases foi
intencionalmente colocado sob a parte superior do guarda mão (também chamado de "telha"), para que o soldado utilizador não
tenha acesso, porém é relativamente fácil para um armeiro fazer a regulagem,
quando necessária.
- Alimentação: O carregador é do tipo caixa, não destacável, com capacidade para 10
cartuchos. A alimentação e feita no sentido de cima para baixo, com clips de
cinco cartuchos, inseridos em uma guia existente na tampa da caixa de culatra
ou através de cartuchos individuais. Existe um retém para o carregador na parte traseira do seu receptáculo, no entanto, ele só pode ser acionado utilizando-se uma ferramenta, como uma chave de fenda.
- Aparelho de pontaria: É constituído por alça tipo lâmina com graduações
de 100 até 1000 metros, com cursor e visor. A massa, por sua vez, é do tipo torre, com
proteção lateral.
- Operação e segurança: A alavanca de manejo situa-se no lado direito da
arma e é solidária ao impulsor do ferrolho. A alavanca de segurança é
localizada no lado direito do guarda-mato e seu acionamento para baixo, além de
imobilizar mecanicamente o gatilho, interpõe-se entre o dedo e gatilho,
impedindo o disparo. Na parte inferior do guarda-mato há um orifício, onde
aflora um pino (parte inferior da guia da mola do martelo) dando indicação que
a arma está engatilhada.
O
acabamento geral das armas é de excelente qualidade e são atualmente muito
valorizadas entre os colecionadores. A abordagem relativamente longa do FN-49
neste artigo, deve-se ao fato que o fuzil acabou por ser considerado como o
"Pai do FAL". O leitor poderá observar que ambas as armas possuem muito
em comum, sendo o FAL, embora quase contemporâneo do SAFN, uma evolução das
ideias e soluções adotadas no "Pai".
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Fuzil FN-49 do contrato venezuelano em calibre 7X57
mm Mauser. A Venezuela foi o primeiro país a adotar o fuzil em 1949.
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Fuzil
FN-49 do contrato argentino, com adaptação local para carregador destacável de
20 cartuchos e calibre 7,62X51 mm NATO. Originalmente, os fuzis comprados pela
Argentina eram no calibre 7,65X53 mm Argentino. Há noticias de emprego limitado
do FN-49, por parte das tropas argentinas, como fuzil de precisão, durante a
Guerra das Malvinas.
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ENFIM, O FAL
Paralelamente
à conclusão do projeto do FN-49, a equipe de Dieudonné Saive, iniciou em 1946,
o desenvolvimento de um fuzil de assalto, utilizando a princípio, o calibre
desenvolvido na Alemanha nazista, o 7,92X33 mm. No inicio de 1947, o primeiro
protótipo no calibre alemão estava pronto e foi apresentado para testes por
observadores belgas e ingleses em 1948.
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| Protótipo
da FN Universal Carbine, no calibre 7,92X33 mm Kurz, testado em 1948. |
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| O
engenheiro Dieudonné Joseph Saive trabalhando no projeto do FAL. |
OS TESTES
Nesta
mesma época, a Inglaterra, desenvolvia um projeto próprio de fuzil de
assalto, o EM-2 (Experimenthal Model nº 2). Este fuzil, foi projetado utilizando a configuração Bullpup, considerada bastante revolucionária para a época. A ideia era que a arma disparasse um cartucho intermediário, o .280 British (7X43 mm), também desenvolvido pelos ingleses, no mesmo período. A Inglaterra, solicitou então à
FN que produzisse alguns modelos de sua "Universal Carbine" compartimentados para este cartucho. Em 1950,
a FN apresentou os protótipos para testes pelos ingleses, em duas versões, uma
como fuzil de assalto “standard” e outra na configuração “Bullpup”, ambas no
calibre .280.
Tanto os EUA quanto a Inglaterra, pretendiam
substituir seu armamento padrão de infantaria, em vista das lições aprendidas
na 2GM. Com a criação da OTAN, em abril de 1949, seus membros, começaram a
pensar na padronização do armamento utilizados pelas forças armadas desta Aliança.
Diante dessa nova perspectiva, ingleses e americanos realizaram testes, em
1950, com as armas elencadas acima, bem como, com um modelo de fuzil projetado
nos EUA, chamado T25, que utilizava um novo calibre desenvolvido
recentemente: o T65, versão em testes daquele que mais tarde seria o famoso
cartucho 7,62X51 mm NATO.
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Protótipo
do fuzil T25. Note o alinhamento da coronha com o eixo do cano, solução que
seria adotada futuramente no AR-15, para maior controle em tiro automático.
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Como
resultados dos testes, o calibre .280 foi julgado inadequado pelos americanos,
que solicitaram à FN que reapresentasse seu fuzil, dimensionado para o
cartucho T65. O fuzil T25 foi recolhido para melhorias e os ingleses, embora
impressionados pela carabina FN, saíram satisfeitos com o EM-2 e o seu calibre,
que acabou por ser adotado no ano seguinte, em 1951.
Nos anos
seguintes, a FN além de enviar vários lotes de fuzis para testes nos EUA
(versão Standard e cano pesado), já compartimentados para o cartucho T65, também
liberou a patente, para produção local da arma. Vários exemplares foram
produzidos nos Estados Unidos, pelas empresas Harrington & Richardson
(H&R), de Worcester, Massachusetts (500 unidades) e High Standard
Company, de Hartford, Connecticut (13 unidades). Estes fuzis, tanto os belgas
quanto os americanos, receberam a denominação de T48 e concorreram em diversos
testes com a versão atualizada do T25, chamada T47 e com a versão evoluída do
M1 Garand, o T44.
Após várias avaliações, que se estenderam de 1952 até 1956,
sendo o T47 descartado logo nos primeiros testes, o T44 foi finalmente declarado
vencedor e escolhido para substituir o fuzil Garand M1, em 1957. Adotado pelo
exército americano, o T44 recebeu a denominação de M14.
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| Protótipo do fuzil T47. |
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| Protótipo do fuzil T44. |
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| Protótipo do fuzil T48, produzido pela Harrington & Richardson. |
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| Protótipo do fuzil T48, produzido pela FN. |
Até hoje, existem diversas discussões em torno da
questão do FAL ter sido considerado inferior ao M14. Os americanos argumentam
que nos testes finais, o T44, além de ser cerca de 1 libra mais leve,
mostrou-se mais robusto e simples, além de ter um desempenho
superior, quando testado no frio do Ártico. Entretanto, sabemos que a teimosia dos ianques em impor o calibre 7,62X51 mm, descaracterizou o FAL como fuzil de
assalto, que era a sua concepção original. Sabemos também que o ponto fraco do FAL,
nesta disputa, nunca admitido por escrito, foi o seguinte: Ele não era americano.
Como dito
anteriormente, a Inglaterra, em 1951, resolveu adotar o fuzil EM-2 no calibre
.280. No entanto, em outubro do mesmo ano, o Sr. Winston Churchill foi
novamente eleito e em 1952, resolveu revogar a adoção do EM-2, com a finalidade
de manter a unidade com os EUA e seu cartucho T65, em proveito da padronização
da OTAN.
Tendo em vista que os americanos continuavam os testes com o FAL e o
Canadá já o havia adotado em 1953, com a denominação C1, a Inglaterra também
adotou a fuzil da FN em 1954, chamando-o L1A1 SLR (Self-Loading Rifle). Os
ingleses esperavam que após este ato, os EUA finalmente se decidiriam pela arma
belga. Todavia, como vimos acima, isto não ocorreu, ficando os ianques com o
fuzil projetado em seu próprio país.
Após o
Canadá e a Inglaterra, o FAL espalhou-se pelo globo, sendo escolhido como arma
padrão de infantaria por mais de 70 países. Em alguns dos países onde a arma
foi adotada, como África do Sul, Austrália, Argentina, Áustria, Brasil, Canadá,
Chile, Inglaterra, Índia, Israel e México, ela foi produzida sob licença, com
poucas modificações em seu projeto original.
Salvo o
caso da Venezuela, que foi o único país a adquirir um lote de fuzis, em 1954,
no calibre 7X49 mm (desenvolvido por técnicos belgas e venezuelanos), o FAL foi
produzido tendo como calibre padrão o 7,62X51 mm NATO (.308 Winchester).
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| Fuzil FAL em calibre 7X49 mm, adquirido pela Venezuela em 1954. |
AS VARIANTES
De maneira geral, o FAL foi produzido em dois
tipos fundamentais: O padrão "Polegadas", dimensionado pelo
sistema de medidas imperiais e utilizado principalmente nos países da
Comunidade Britânica e o padrão "Métrico", utilizado pelos
demais países. As principais diferenças entre os tipos, são as seguintes:
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| Detalhe
das alavancas seletoras de tiro e de manejo, bem como das chavetas do trinco da
armação. Esquerda: Padrão "Métrico", direita: Padrão
"polegadas". |
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| Detalhe
dos reténs do ferrolho e do carregador. Esquerda: Padrão "polegadas",
direita: Padrão "Métrico" |
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| Detalhe
dos "cavados" de fixação do carregador. Esquerda: Padrão
"polegadas", direita: Padrão "Métrico" |
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| Detalhe
dos carregadores. O usado no Padrão "Métrico" pode ser usado no Padrão
"Polegadas", porém o contrário não é possível. Esquerda: Padrão
"polegadas", direita: Padrão "Métrico". |
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| Detalhe
dos impulsores do ferrolho. Acima: Padrão "Métrico". Abaixo: Padrão
"Polegadas", com cortes transversais para escoamento de areia e outras
sujeiras. |
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| Detalhe
das massas de mira, dos anéis de regulagem e dos obturadores do cilindro de
gás. Esquerda: Padrão "polegadas", direita: Padrão
"Métrico". |
A FN, por sua vez, produziu o FAL nas seguintes configurações:
- 50.00 (STANDARD) - Versão padrão com cano de 533 mm e coronha fixa;
- 50.61 - Versão
"Para" com coronha tubular rebatível e cano padrão de 533 mm;
- 50.62 - Versão
"Para" com coronha tubular rebatível e cano de 458 mm;
- 50.63 - Versão
"Para" com coronha tubular rebatível, alavanca de manejo
dobrável, sem alça de transporte e cano de 406 mm;
- 50.64 - Versão "Para" com armação em liga de alumínio, coronha
tubular rebatível e cano padrão de 533 mm; e
- 50.41/50.42 - Também denominado FALO ( do francês: Fusil Automatique Lourd, em
português: Fuzil Automático Pesado), é uma versão com cano reforçado
(pesado), destinado a servir como arma de emprego coletivo a nível de
esquadra de tiro, funcionando como uma metralhadora leve. Para esta versão
foram produzidos carregadores com capacidade para 30 cartuchos, no entanto,
ela pode utilizar os carregadores padrão de 20 cartuchos. No Brasil, é
conhecido como FAP (Fuzil Automático Pesado). A diferença entre a versão 50.41 e a 50.42 é que a primeira possui a
coronha e o guarda-mão em material sintético e a 50.42, em madeira.
As
configurações listadas aqui visam apenas dar uma visão superficial das versões
produzidas, visto que ao longo dos anos, as mesmas sofreram modificações em
alguns países produtores e até mesmo pela própria FN.
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| Vista lateral direita de um FN FAL 50.63. Notar a ausência da alça de transporte e o cano curto. |
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| FN FALO (FAP) versão 50.42 |
O FUNCIONAMENTO
O FAL é uma arma de tiro seletivo, permitindo o
tiro intermitente (semiautomático), de rajada (automático) e o lançamento de
granadas de bocal ou tiro de repetição. No entanto, a versão adotada pelos ingleses (L1A1) e pelos países da
comunidade britânica (padrão "polegadas"), eram em quase sua totalidade
restritos apenas ao funcionamento semiautomático.
Embora a maioria das versões
fabricadas permitirem o tiro automático, quem já teve oportunidade de atirar
com um FAL, sabe que devido à potência de sua munição, é extremamente difícil
o seu controle quando atirando deste modo. Desta forma, a doutrina de emprego do
fuzil, em quase todas as forças armadas onde ele foi adotado, foi de não recomendar
e até mesmo proibir a seus soldados a utilização de fogo automático.
A exemplo do FN-49, o FAL também possui um
obturador para o cilindro de gases, com funcionamento idêntico. Possui também
um anel para regulagem dos gases, no entanto, ao contrário do FN-49, este fica
exposto e facilmente acessado pelo usuário. Esta condição é um dos pontos
positivos do fuzil, pois em caso da arma estar muito suja, o atirador pode ir
fechando o escape de gases e mantê-la funcionado mesmo em condições severas.
O funcionamento do FAL, a princípio, segue os
mesmos fundamentos das armas que funcionam por aproveitamento dos gases e de forma
muito semelhante ao do FN-49, entretanto, sua alavanca de manejo foi colocada no lado esquerdo da arma.
Tomemos por base, que a arma já está com o
carregador municiado, alimentada e carregada (cartucho na câmara):
- É realizado
o disparo, a pressão dos gases resultantes da queima da carga de projeção
impulsiona o projétil ao longo do cano. A arma permanece trancada devido ao
ferrolho estar firmemente preso entre a câmara e o seu apoio. Na altura do
terço médio do cano, há um evento (orifício) na sua parte superior, que permite
a passagem dos gases para o cilindro, caso o obturador esteja na posição
aberto. O cilindro de gases, por sua vez, está posicionado sobre e paralelo ao
cano;
- No interior do cilindro está alojado um êmbolo com mola própria, que ao
receber a pressão dos gases na sua face frontal, aciona o impulsor do ferrolho
através da sua parte posterior, voltando em seguida a posição inicial por ação
de sua mola;
- O impulsor do ferrolho ao receber a pancada do êmbolo, recua livre
alguns milímetros, quando então, através de suas rampas de
destrancamento, aciona o ferrolho para cima e logo após para a retaguarda,
fazendo o destrancamento, a abertura e a extração do estojo que está preso pela
garra do extrator;
- Ao recuar, a haste do impulsor do ferrolho comprime o
conjunto de molas recuperadoras, situado dentro da coronha (na versão Standard)
(*1);
- Durante o recuo do conjunto impulsor/ferrolho, a parte superior do
martelo (cão) é acionada para trás, fazendo-o girar em torno de seu eixo,
comprimindo sua mola e ficando em condições de ser retido pelo mecanismo do
gatilho;
- O estojo, que até este momento encontrava-se preso à face do
ferrolho pelo extrator, encontra o ejetor que o faz girar e ser expulso través da
janela de ejeção; e
- Ao final do recuo das partes moveis, as molas recuperadoras
impulsionam o conjunto impulsor/ferrolho para frente. Ao passar sobre o
carregador, o ferrolho retira um cartucho e o introduz na câmara, fazendo o
carregamento. Neste momento, ocorre também a prisão da virola do estojo pelo
extrator. Logo após, o ferrolho é forçado a descer sua parte posterior pela
ação das rampas de trancamento do impulsor e fica novamente retido entre a
câmara e o seu apoio, dando-se o trancamento. A arma está pronta para um novo
disparo.
O funcionamento descrito aqui não inclui o
funcionamento automático, tampouco o movimento de todas as peças envolvidas. A
finalidade é dar ao leitor mais leigo, uma ideia elementar sobre como funciona
esta arma tão famosa.
(*1) Nas versões
"Para", as molas recuperadoras estão entre um alojamento existente na
parte superior do impulsor do ferrolho e um apoio na parte posterior da tampa
da caixa de culatra.
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Vista em corte de um FN FAL "Standard". Observe que na imagem, a arma está na condição de final de recuo das partes moveis, com molas recuperadoras comprimidas e mecanismo de disparo armado.
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FICHA TÉCNICA (versão Standard):
Tipo: Portátil -
Fuzil de assalto (*2);
Emprego: Individual;
Calibre: 7,62X51
mm;
Carregador: Metálico, destacável, bifilar, tipo caixa, com capacidade
p/20 cartuchos;
Funcionamento:
Aproveitamento dos gases (pistão com mola localizado sobre o cano, acionando o
impulsor de um ferrolho basculante);
Comprimento: 1,10 m;
Peso (C/carregador vazio): 4,2 Kg;
Velocidade teórica de tiro: 650 a 700 TPM;
Velocidade pratica de tiro: Automático: 120 TPM e semiautomático: 60 TPM;
Cano: Raiado (4
raias à direita, com passo de 304 mm) e comprimento de 533 mm; e
Miras: Massa tipo
torre com proteção lateral com ajuste em elevação e alça tipo lâmina graduada
de 100 em 100 até 600 metros e ajuste em direção.
(*2) No que se
refere à classificação do FAL como Fuzil de Assalto, existe uma controvérsia em torno da inclusão da arma nesta categoria. Ela decorre de uma nova
classificação, denominada: BATTLE RIFLE (Fuzil de Batalha ou Fuzil de Combate).
Usada principalmente nos Estados Unidos, esta categoria engloba as armas que
embora satisfaçam a maioria dos requisitos para serem fuzis de assalto, não
utilizam um calibre classificado como intermediário. Podemos citar como
principais exemplos, as seguintes armas: FAL, HK G3 e M14.
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| Vista explodida de um FN FAL 50.00, Métrico, incluindo a identificação das peças. |
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| Vista explodida de um FN FAL Métrico, versão Para (50.61) |
O FAL NO BRASIL
Ao final da Segunda Guerra Mundial, o Brasil, assim como grande parte dos países envolvidos, sentiu necessidade de modernizar e padronizar o armamento de sua infantaria, acompanhando o atual "Estado da Arte", na época. Em meados dos anos cinquenta, o Exército iniciou os testes com a nova arma produzida pela FN. Em 1964, o FAL foi finalmente adotado com a designação de Fuzil 7,62 M964 "FAL". Juntamente com a adoção, foi concedida a licença para produção local das armas, o que foi feito na Fabrica de Itajubá (FI), atual IMBEL. O fuzil, além do Exército, foi adotado também pela Marinha, sendo usado na Armada e pelos Fuzileiros Navais.
A IMBEL continua produzindo o FAL até hoje, tornando o Brasil, juntamente com os Estados Unidos, (quem diria) os últimos países a fabricá-lo. No entanto, a produção nos EUA, ao contrario do Brasil, não se destina a atender encomendas governamentais e sim à grande demanda de atiradores e colecionadores.
Atualmente, o FAL ainda permanece em uso no EB e na
MB, tornando o Brasil, salvo engano, o último país do mundo, a ter forças
armadas regulares equipadas com esta arma. Entretanto, conforme a Portaria nº
211-EME, de 23 de outubro de 2013, do Estado Maior do Exército, o fuzil IMBEL
A2 (IA2) no calibre 5,56X45 mm, foi adotado pela força e deve gradativamente
substituir os "velhos" FN FAL. Na Marinha, na década de noventa, o
fuzil Colt M16A2 substituiu o FAL nas unidades operativas de Fuzileiros
Navais, porém ele ainda permanece em uso na Armada e em algumas unidades do
CFN.
As variantes adotadas no Brasil incluem a versão
"standard" (50.00), com coronha e guarda-mão em material sintético, a
versão "Para", normalmente chamado de "Parafal", que
recebeu aqui a denominação de Fuzil M964 A1 e a "FALO" (50.41) que aqui
foi chamado de FAP (Fuzil Automático Pesado). Embora a tendência seja de
substituir o FAL pelo IA2, esta arma é e continuará sendo por muitos anos a
referência em armamento de infantaria para várias gerações de militares, sejam
eles soldados ou marinheiros.
AS BAIONETAS
Em linhas gerais, as baionetas utilizadas pelo FAL, no mundo, foram as seguintes:
Tipo A:
Este modelo, usado nas armas que não possuem qualquer dispositivo na boca do cano, foi considerado inovador na época, devido a um "êmbolo" com mola situado no interior do punho. Este dispositivo, faz a baioneta "flutuar" durante seções de tiro rápido ou em rajadas, minimizando a interferência na precisão da arma. Outra característica deste tipo é um supressor de flash, situado acima e a frente do anel de fixação. Podem ser encontradas variantes do tipo "A" com talas do punho em madeira, plástico ou metal.
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| Baioneta e bainha do tipo "A". A bainha, de aço, segue o mesmo padrão da FN Mauser Exportação, desenvolvida na década de vinte. |
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| Desenho mostrando a baioneta tipo "A" calada. |
Tipo B:
Este tipo foi desenvolvido para os fuzis equipados com o quebra-chamas longo, estilo Browning. Esta variante, difere do tipo A devido a uma lâmina mais curta e por não possuir o supressor de flash. Devido às armas que utilizaram o quebra chamas longo não terem sido muito difundidas, este tipo de baioneta, hoje é considerada raridade.
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| Baioneta tipo "B", modelo utilizado pela policia da África do Sul. |
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| Adaptação da baioneta tipo "B" ao FAL. Note o longo quebra-chamas tipo "Browning". |
TIPO C:
No início da década sessenta, a OTAN padronizou as granadas de bocal em 22 mm. Como resultado, a FN desenvolveu um novo modelo de quebra chamas, para adaptação das granadas STANAG ao FAL. Como consequência, também houve necessidade da criação de um novo tipo de baioneta. Foi criada então a baioneta, de alvado, que hoje é conhecida como tipo "C". Este modelo possui uma lâmina de cerca de 170 mm (podendo variar alguns milímetros, dependendo do fabricante) com a parte superior plana e a inferior curva. Este é o tipo de baioneta do FAL, mais comum e a mais fácil de ser encontrada, sendo usada em dezenas de países, com pequenas variações entre os modelos. As bainhas podem ser fabricadas em aço ou plástico.
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| Baioneta e bainha do tipo "C". |
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Quebra chamas para granadas STANAG de 20 mm e baioneta tipo "C".
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SÉRIE L1:
Baseada no design da baioneta do Lee-Enfield, este modelo recebeu a designação do fuzil no qual era escalada. Assim, existem as seguintes variações: L1A1, L1A3 e L1A4 produzidas na Inglaterra, L1A2 na Austrália, C1 no Canadá e 1A na Índia. De forma geral, os modelos são bastante parecidos, com apenas algumas variações no tamanho das lâminas ou no material empregado.
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| Acima: Baioneta e bainha modelo L1A2, produzida na Australia e, abaixo: Modelo indiano 1A, com sua respectiva bainha. A versão 1A, é a baioneta mais longa utilizada no FAL, podendo ter lâminas de 8 ou 10 polegadas. |
O FAL PELO MUNDO
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| Testes do veiculo de reconhecimento HZ-1 Aerocycle em meados da década de cinquenta, no EUA. Note que o tripulante está equipado com um fuzil T48. |
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| Soldado canadense em treinamento com seu C1A1. Observe a alça de mira de anéis rotativos graduada de 200 a 600 jardas e a guia para alimentação por clips, situada na parte superior da tampa da caixa de culatra. Estas características, somadas a um percussor de duas peças, constituem os principais pontos que identificam a versão canadense do FN FAL. O Canadá foi o primeiro país a adotar a arma em 1953. |
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| Fuzil FN FAL na versão adotada pelas IDF (Forças de Defesa de Israel). O modelo israelense, chamado de Rov've Mittan ou Romat, é facilmente identificado pelo guarda-mão característico, que utiliza uma combinação de chapa de metal e madeira. Outro ponto a ser observado neste modelo, é o seletor de tiro em forma de bumerangue. |
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| Soldados argentinos equipados com o FAL durante a Guerra das Malvinas. Neste conflito, o fuzil foi empregado pelos dois lados, sendo o L1A1 pelos ingleses e a versão Métrica produzida localmente, pelos argentinos. |
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| Imagem recente de soldados do Exército Brasileiro desfilando com o FAL. |
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| Em 2010, o líder do Hezbollah Hassan Nasrallah, presenteia o então presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, com um fuzil FAL que teria sido capturado de um combatente israelita durante a ofensiva de 2006. Ocorre, que esta arma saiu de serviço nas IDF, cerca de 30 anos atrás. Claro exemplo de propaganda política para o público desinformado. |
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| Vista lateral esquerda de um L1A1. |
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| Vista lateral de um FAL produzido para a Alemanha Ocidental. Ele foi designado localmente como G1. A característica que permite a rápida identificação desta variante é o guarda-mão de metal prensado com linhas horizontais. O G1 foi adotado no exército da Alemanha Ocidental em 1956, sendo logo substituído em 1959, devido à recusa dos belgas em liberarem a patente para produção local. Como resultado da negativa da FN em liberar a produção da arma, os alemães adotaram o CETME espanhol e a partir dele passaram a produzir HK G3, que se tornaria o maior rival do FAL, no ocidente. |
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| Versão do FAL produzida pela empresa americana DSArms. As versões produzidas nesta empresa recebem a denominação de FAL SA58. A imagem corresponde à variante FAL SA58 mini-OSW (Operational Specialist Weapon). |
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Soldado venezuelano durante a revolução de 1958, equipado com um FN FAL no calibre 7x49 mm. Posteriormente, estas armas teriam sido reformuladas para "calçar" o cartucho 7,62X51 mm NATO.
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